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segunda-feira, 22 de junho de 2009

Imprensa - Faladores


FALADORES


“... E, dentro do mundo das artes cênicas, ainda há espaço para ressaltar a dança. A Cia. Mário Nascimento brindou seus dez anos com uma estréia à altura: o espetáculo "Faladores". Momentos de extrema sutiliza, como no início do espetáculo em que Rosa Antuña ( sensacional) parece costurar palavras que saem de sua boca. FALADORES está entre os melhores espetáculos de dança em 2008.”

SORAYA BELUSI Magazine – O Tempo – Sexta-feira, 26/12/2008


FALADORES FAZ DA QUEDA DOS CORPOS UM GESTO ARTÍSTICO

Obra de Mario Nascimento revela inquietação investigativa
Faladores, a mais nova obra de Mário Nascimento com a sua companhia, participou do recente Festival Panorama de Dança, no Rio, depois de estrear no Sesc VilaMariana, em São Paulo , e encerrar uma temporada de sucesso no Teatro Alterosa, em Belo Horizonte. Nela , Mario Nascimento e seus oito excelentes interpretes avançam na construção de um vocabulário que se torna cada vez mais autoral.
Os corpos caem sempre, e nesse constante cair, de repente, a vermelhidão do linóleo sobre o qual eles dançam ganha outro sentido. Os recortes que a iluminação vai fazendo colaboram para tonalizar as roupas e os gestos, promovendo um certo efeito visual que nos leva a perceber que o chão esta ocupando um outro papel. Que o chão se espacializou e invadiu a verticalidade. E que, por isso, os corpos caem, mas não como interrupção dos movimentos. O chão não é um lugar de repouso. Os corpos caem porque cair é somente mais um dos seus gestos. Cair se equivale a estar de pé.
Os pas-de-deux constituem uma boa oportunidade para se ver como um corpo passa a ser o chão do outro, um corpo-lugar de impulso-e-chegada. Um corpo-chão em várias perspectivas: mais para baixo, tombado mais para um lado, depois para o outro, mais para cima.
Faladores não trabalha com os 90º entre horizontal e vertical como parametro na sua busca do cair e do pendurar. Porque os corpos também se penduram uns nos outros e, a todo momento, se montam com desencaixes de braços, troncos, pernas e quadris. Como as articulações entre eles buscam evitar a vertical, vai surgindo um padrão de ocupação do espaço que ecoa o da vermelhidão que vai escapando do chão.
Andre Rosa, Daphne Chequer, Joana Wanner, Jose Villaça, Mariel Godoy, Marco Túlio Ornellas, Rosa Antuna e Thaïs França, cada um deles contribui de um modo particular na construção desse vocabulário, que já vinha do transito entre lutas marciais, dança de rua, música e teatro. Agora, a eles agregaram a oralidade. Os oito criaram uma língua própria, o "momoês", estimulados pelos estudos que flzeram de Paul Zumthor (1915-1985), referenda
central nas pesquisas das poéticas da voz, e de Yoshi Oida, que tem um trecho de seu livro incluído no espetáculo.
Os figurinos merecem uma atenção especial porque justamente desmontam, de uma maneira bastante original,a premissa de que a dança depende de um figurino especialmente desenhado. Em Faladores, a roupa da grife Elvira Matilde, que está no palco, também pode estar na platéia. A companhia foi a uma de suas lojas e lá escolheu o que iria usar em cena. Com esse gesto, nos levou a refletir não somente sobre o que representam os figurinos na dança, mas também, a buscar uma relação entre o figurino especialmente criado e a ação cotidiana de comprar o que se vê na vitrine, tendo como meta fazer da roupa um traço da nossa singularidade.
Os dez anos de percurso da Cia. Mário Nascimento são pautados pela colaboração com o músico Fábio Cardia, autor da trilha de Faladores, assim como de todas as outras obras do repertório, formado por 0 Rebento (2007), Do Ritmo ao Caos (2005), Escambo (2002), Trovador (2000) e Escapada (1998). Na relação entre música e dança que vem construindo, a música vem se materializando em cena cada vez mais. Não apenas por conta da presença do compositor, mas porque ela vem buscando inventar formas de se fazer visível nos corpos. Ampliar para a exploração da oralidade, nesse contexto, então, passa a fazer todo um sentido evolutivo. E demonstra que o percurso coerente e consistente de Mário Nascimento na dança brasileira se pauta por uma saudável e permanente inquietação investigativa. Ela é o motor propulsor do seu jeito de inventar essa dança que carrega a sua assinatura. • H.K.

Helena Katz Caderno 2 – Estado de São Paulo – Quarta feira, 19 de novembro de 2008

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